quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sobre o complexo de superioridade

A humanidade não passa de uma fração de grão de areia na nossa galáxia (não vou nem falar em relação ao
Universo..rs). Nós não escolhemos ou pedimos para nascer, nós sabemos concretamente muito pouco a respeito deste Universo. Diferentemente do que se acreditava, nosso planeta não é o centro de tudo, somos só mais um planeta entre bilhões.

A Wikipedia  diz que complexo de superioridade "refere-se a um mecanismo subconsciente de compensação neurótica desenvolvido por um indivíduo como resultado de sentimentos de inferioridade".

E eu começo a imaginar que todo ser humano tem esse complexo. Todos nós, ao vermos que somos tão pequenos que só nosso país já nos parece gigante, procuramos algo que nos torne únicos, especiais.

Os nazistas encontravam em sua "raça" um motivo para serem superiores aos demais povos, que deveriam ser eliminados.
Os donos de escravos viam nestes um objeto que poderia ser utilizado para auxiliar aqueles que eram superiores no que fôsse preciso
O brasileiro não vai com a cara do argentino
Muitos sudestinos são melhores que os nordestinos
O baiano vê os estados de cima como seu terraço.

Sempre haverá alguém que se vê superior a outrem.

Motivos podem ser os mais diversos, por seguir uma ideologia, por chegar a certa conclusão, ou simplesmente porque alguém, um dia, se fez superior, e agora o feito inferior quer se vingar. Todos os motivos caem em um só: o ser humano quer ser notado.

Hoje eu fui vítima de um ciclo vicioso e que, por sua recorrência, é algo já tido como banal. O tal do "trote".
Apesar de não ter sido atingido física, o fui moralmente. Os tais veteranos simplesmente se colocaram na porta da sala, impedindo a passagem. Pedi licença, e em resposta só houve hostilidade: "tá pensando que vai pra onde?"; "qual é seu nome? qual é seu curso". Tentando permanecer calmo, pedi novamente licença, alegando que não queria nem iria participar do tal trote. Novamente, mais hostilidade. Consegui passar por duas garotas, mas ainda assim fui parado por outra garota (me pareceu ser a menor do grupo, que era, em totalidade, menor que eu), tentei forçar a passagem e ela disse para eu não tocá-la, pois a mesma não estava me segurando, e eu disse que ela estava impedindo a minha passagem. 

Finalmente, um rapaz, que pareceu ser o líder do grupo, chegou do meu lado e falou civilizadamente comigo: "Cara, essa é uma experiência que você não terá nunca mais na vida, é especial!". Repeti que não queria e ele assentiu, só assim a garota saiu de minha frente e pude me deslocar. E então eles entraram na sala, que havia cerca de 13 colegas meus. Enquanto andava pelo corredor, ouvi uma das garotas dizer "Fecha a porta aí, não vai sair ninguém!". 

Chegando na escada me encontrei com a professora que tinha dado aula, e ela me disse: "Você conseguiu sair de lá? Eles não fizeram nada?", com uma cara super espantada. Conversamos um pouco a respeito da falta de propósito no trote, da maneira como ele é feito e tal, e depois fui para casa, ainda um pouco transtornado pela situação que fui obrigado a passar.

Desde que passei na UFBA eu tive certeza de que não participaria de qualquer evento relativo ao trote. Sim, sou chato, e sabia qual era o verdadeiro significado por trás dessa aparente ingênua "boas-vindas". Aquilo nada mais é do que poder. Os veteranos se julgam no poder (inclusive, enquanto ainda estava em aula, ouvi alguém no corredor falar alto: "O comando aqui é nosso!"),  e pesquisando o contexto histórico do trote, enxergaremos que não é nada mais que isso. O veterano se julgando superior ao calouro.

Já ouvi muitos motivos de veteranos, porque eles se chateiam pelo calouro achar que a faculdade é uma maravilha, por status, ou simplesmente querendo se vingar em outra pessoa pelo trote que já tomou.

A coisa já começa pelo termo "trote". Que vem da velocidade do cavalo, entre uma marcha lenta e o galope. O cavalo é treinado, domesticado durante o trote. E a ideia é de que, com o trote, o veterano pudesse mostrar ao calouro quem estava no comando.

A origem de "vestibular" também é interessante.  Os candidatos aos cursos das primeiras universidades europeias não podiam frequentar as mesmas salas que os veteranos e, portanto, assistiam às aulas a partir dos "vestíbulos" - local em que eram guardadas as vestimentas dos alunos. "As roupas dos novatos eram retiradas e queimadas, e seus cabelos, raspados. Essas atividades eram justificadas sobretudo pela necessidade de aplicação de medidas profiláticas (higiênicas, de limpeza) contra a propagação de doenças".

Eu não vi nada de recepção ou boas-vindas naquilo que aqueles veteranos estavam fazendo. Eles queriam me obrigar a participar daquele ato, foram hostis.

Sou muito apegado a símbolos, significados, e eu nunca iria me submeter a algo que remete a inferiorização de alguém, por mais maquiada de "quebra-gelo, recepção" que aquilo seja.

Voltando ao que eu disse no início, o sentimento de superioridade invade cada um de nós. O veterano se acha no direito de, contra a vontade do calouro, fazer algum tipo de brincadeira com ele (por mais ou menos bem intencionada que seja). O calouro, em poucos semestres, será invadido por esse sentimento de superioridade também.

Foi o que aconteceu quando eu saí do SESI, meses depois de concluir o ensino médio e estar no SENAI, muitos colegas meus já tratavam os sesianos como guris, inferiores. Foi o que aconteceu quando entramos no SESI, e passávamos no SENAI para almoçar, os que estavam no lugar que três anos depois nós estaríamos nos olhavam e riam de nós.

É o que acontece quando alguém que nasceu nas décadas de 60, 70, vê jovens com diversões que, para eles, são completamente fúteis, e que na época deles a infância era mais divertida, o namoro. Dizem que essa geração é perdida, como se já tivesse havido alguma "geração salva" na terra. É o que acontece com quem nasceu na década de 90, que acha que sua infância foi melhor do que a das crianças de hoje.

Sempre houve o complexo de superioridade, sempre haverá.

"O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.
(Eclesiastes 1:9-10)"

sexta-feira, 7 de março de 2014

Imbecila dos Santos




























É porque não tem como não encontrá-la e não rir pelo menos uma vez.
Porque é muita idiotice pra uma pessoa só.
Porque as perguntas dela dela são ótimas.
Porque as respostas são mais ainda.

Mas o que me fez ter vontade de todo dia sentar lá no fundo ao lado dela foi porque ela é uma menina que contagia com sua alegria. Não lembro de ter a visto chateada, irritada. Ela sempre via o lado bom das coisas (menos quando se tratava de perder o Lapa ou Est. Mussurunga por ter ido ao banheiro! KKKKKKKKK).

Sou muito grato a Deus por ter colocado-a em minha vida. Ela, sem dúvida alguma, foi muito importante pra me manter ali no SENAI. Ela foi uma Mãe de Deus (ou Madre de Dios? :P) para mim ali!
Sinto saudades de vê-la todo dia, de ir pra estação e pegar infinitos engarrafamentos com ela. Mas o tempo passa né? A gente vai crescendo, amadurecendo e outras demandas vão surgindo. Contudo, isso é bom. É importante continuarmos no processo de construir o nosso eu. Porque lá na frente nos encontraremos se o Brasil não ganhar a Copa! kkkkkk e poderemos nos recordar das coisas que vivemos e também perceber que crescemos, que chegamos naquilo que queríamos.

E eu sei que ela terá sucesso, ele vive reclamando que não tem ninguém pra ficar lá na Ruy, eu já disse que ela vai fazer muitos amigos lá. Mas eu não disse a ela porque eu tinha certeza disso.

É porque é impossível não gostar do jeito simpático e alegre dela.
Porque ela aceita as diferenças dos outros e sabe respeitar. menos quando dá tapa na cara, que é falta de respeito maior! :P
Porque ela é inteligente e engraçada.
E, acima de tudo, porque ela não tem medo de ser rotulada como louca, infantil.
Porque nós dois sabemos que esses que nos acham assim queriam ser do mesmo jeito, espontâneos.

Nem preciso desejar, porque eu sei que, não só hoje, mas todos os dias dela serão felizes, pois ela sempre vai ver o lado bom das coisas. E sempre vai lembrar que existe Alguém que cuida de nós, que nos ama e que sempre está pronto a ouvir nossas orações!

Mas o mais importante é que ela NUNCA esqueça de uma coisa:

"A dona de casa é a melhor operadora logística que existe no mundo".


♥
LINDA! FOFA!

quarta-feira, 5 de março de 2014

Lorde - O contrapop


Foi numa madrugada, entre um cochilo e outro em frente a TV que eu conheci a cantora Ella Maria Lani Yelich-O'Connor. Mas não a ouvi cantar, só vi seu rosto enquanto o narrador dizia com entusiasmo que Lorde (bem mais legal de falar, hein? kkkkk) era uma adolescente de 17 anos que estreou com muito sucesso. Junto de Adele, alcançou o feito de vender mais de um milhão de discos no álbum de estreia, seu álbum alcançou posições em rankings (como a Billboard) maiores do que de cantores já consagrados.

Só que o que me chamou atenção mesmo foi saber que ela compôs sozinha todas as músicas de seu CD, e que sua mãe é poetisa.
E minha surpresa foi maior quando, no dia seguinte, fui procurar as letras dela na internet (é a primeira coisa que faço quando conheço um cantor/banda rs), letras grandes, que dificultam aprender a música toda rapidamente, refrões que não repetem à exaustão e não grudam na mente. E me pergunto até hoje, o que fez essa guria ter tanto sucesso (kkk)?
Não faço a mínima ideia, só sei que as letras me encantaram, pois não é aquilo que estou acostumado a ver na música pop ("baby, I love you"; "you're my life, baby"; "my heart is yours, baby!"; baby, baby, baby....). Das 16 músicas da versão extendida do CD "Pure Heroine" - que contem as musicas do seu EP "The Love Club" - eu ouvi 6 e já me encantei (quando digo que "ouvi", não me refiro a ter escutado a música, mas sim ter apreciado, entendido a mensagem da música e tal...). Ela afirma que o luxo, festas de gala, badalação e abundância que são cantados pelos artistas pop (principalmente os mais jovens) estão longe da realidade dela e de muitos outros jovens. E ela deixa isso claro em Royals, sua música mais famosa.

As letras dela são bastante subjetivas. Dando margem para várias interpretações. A minha preferida até o momento é "Buzzcut Season", na qual ela fala a respeito das ilusões que vivemos por conta da falta de senso crítico e de iniciativa para trazer mudanças.

Outra que gosto bastante é "Bravado". A minha interpretação dessa é que uma artista mimada e arrogante está contando sua história (que eu tenho certeza que foi uma "cutucadinha" em cantoras as quais ela já criticou abertamente).

A musicalidade deixa muito a desejar. Tudo bem que não se pode esperar arranjos bons e interessantes na música pop em geral, é tudo muito artificial, e nesse quesito Lorde não é muito diferente do que se vê por aí. Às vezes dá pra ouvir um teclado, ou uma bateria, no mais, são só batidas eletrônicas bem secas.

Mas no fim das contas Lorde fica com um saldo beeem positivo. Já que pra mim as letras da música tem um peso maior. E quem sabe com o tempo ela não adquira uma sonoridade mais expressiva, interessante?

Esse é o clipe da música Team, a qual ainda estou em "processo de apreciação", tanto da música quanto do vídeo. rs




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

"Sou Congregacional", "Hum...é Batista, é?"

...e você tem que explicar toda vez a mesma história porque NINGUÉM conhece a denominação (mesmo sendo a primeira igreja evangélica do Brasil).

E quando você resolve fazer um curso técnico em Logística? Além de explicar o que é "ser Congregacional", você também tem que explicar o que é Logística. "É coisa de loja?", "É pra trabalhar repondo prateleira?". Os mais "antenados" arriscam que se trata de serviço de transporte (o que não está errado, mas este serviço é uma gotinha no oceano logístico, mas eu não vou entrar em detalhes não! kkk).

Mas, ainda não satisfeito, você decide que será bacharel em Engenharia Sanitária e Ambiental! "É o que isso, rapaz? Vai mexer com banheiro?", "Vai desentupir vaso?", "Vai cuidar de bicho?", "É coisa de floresta?".

Não culpo as pessoas. São coisas "novas" (menos a Congregacional! kkkkk) mesmo, é normal não conhecer. O problema é que não termina por aí. Já tive problemas por conta da falta de conhecimento dos outros. Já acharam que eu estava ficando com uma amiga minha, justificando com fatos sem noção. Me questionaram por ter ido num show secular (Hermanos, voltem que eu quero de novo! kkk), por ouvir música secular, por ler "coisa de bruxo", entre outros.

Jesus uma vez disse que quando conhecêssemos a Verdade, ela nos libertaria. E é assim que eu queria que as pessoas se sentissem, livres, como eu me sinto. Livres para pesquisar, para examinar tudo e reter o que é bom. Então, porque antes de criar uma ideia da "influência espiritual" que livros ou músicas trazem, ou simplesmente do que é Logística e Engenharia Sanitária e Ambiental (rs), que tal procurar saber a verdade à respeito? 

Jesus morreu para nos libertar da falta de senso crítico também! ;)





OBS: Pessoas, não é uma indireta pra quem já me perguntou alguma vez de que se tratavam os dois cursos, eles foram só "um gancho" pra o que eu queria falar de fato! rs

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

(Pq deu vontade de postar...xD) - A Esperança


1º- Demorei mais de um mês pra ler 151 páginas e algumas horas pra ler 268! kkkkkkkk
2º- Se você não leu o livro, infelizmente não vai entender tudo, mas o mais importante irá! ;)


"Quer dizer então que foi assim? Mais ou menos setenta e cinco anos atrás? Será que um grupo de pessoas se sentou ao redor de uma mesa e votou para dar início aos Jogos Vorazes? Será que houve dissensão? Será que alguém defendeu o perdão e foi derrotado pelos que clamavam pela morte das crianças dos distritos? O cheiro da rosa de Snow se enrosca em meu nariz e desce pela minha garganta, comprimindo-a em desespero. Todas aquelas pessoas que eu amava, mortas. E nós aqui discutindo os próximos Jogos Vorazes numa tentativa de evitar novas perdas de vida. Nada mudou. Nada jamais mudará agora.
Eu sopeso minhas opções com muito cuidado, avalio todas as possibilidades. Sem tirar os olhos da rosa, digo:
- Eu voto sim... pela Prim."

(A Esperança, pág. 397)




E ao fim da trilogia eu me faço a pergunta: Existe Esperança?
Porque se me disserem que a Srta. Everdeen é a esperança, eu farei um "¬¬" para quem disser. Se a esperança de uma Panem em paz é alguém que vota sim para mais uma edição desse massacre cruel e abominante chamado "Jogos Vorazes" eu tô lenhado...
Desde meu primeiro contato com a trilogia "Jogos Vorazes" eu gostei muito, porque apesar de ser uma ficção, a história trata claramente do mundo em que vivemos. Os poderosos explorando os pobres, e estes ficando indiferentes por conta do famoso "Pão e Circo".

Mas no fim acabo percebendo que a escritora não queria pôr a culpa disso tudo naqueles que estão no poder. Ela põe a culpa no ser humano, porque no fim da história, quando os rebeldes chegam ao poder, eles querem vingança, eles querem fazer a mesma coisa que os poderosos fizeram com eles, é um ciclo.
E, realmente, o poder não corrompe o ser humano, ele já nasce corrompido.

Não há esperança para Panem nem para o nosso mundo.




Bom é saber que minha Pátria não é aqui! :)

sábado, 28 de dezembro de 2013

Minha cunhada! :D

(Você nem sabe do quanto fiquei feliz quando vi que tinha tirado você! kkkkkkkk)

Pri, eu não poderia fazer só o cartão (até porque eu nem sei fazer direito, ele não ficou lá essas coisas! rsrs), já tem algum tempo que estou devendo esse post pra você, devendo não porque você estava me cobrando, ou porque eu tinha o dever de fazer, mas porque você merece um espaço exclusivo no meu blog.

Eu lembro nitidamente daquela ADR em 2010 em Jd. Cruzeiro, na noite do sábado, o culto foi na Gabriela, de inauguração do templo. E aí no fim do culto você disse: "Vamos marcar algum intercâmbio de igrejas pra nos conhecermos mais!". Só que nem foi preciso, nos conhecemos mais pela internet e em outras ADR's, Encontrões, etc, etc.. a nossa amizade chegou no nível "tira foto dele dormindo com o tigre da Parmalat!". kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

E eu sei que ela só tem a aumentar, até o dia em que veremos o Pai face a face, e aí será Alegria eterna! É muito bom saber que nossa amizade vai se estender pela eternidade! o/

Te amo, linda!! <3

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2013

       
          Eis aqui o meu primeiro disco. Foi feito num inesperado porém muito bem-vindo exílio, numa terra onde não me imaginava achar mas que, por conta de toda diferença e de na chegada eu lá ter sido um total desconhecido, me deu a divina oportunidade de re-conhecer a minha natureza, recobrar a minha ascendência e as minhas saudades que, de longe, entravam em foco enquanto se esmaíam outras. Pois que, na solitude de ser estrangeiro, pensando na mobília que havia abandonado e tentando ainda enxergar-me nela eu me encantei com a sala vazia, com o espaço, e me pus a olhar pra distância, a ver o duplo que me espelha de fora, que reflete a visão que chamo de minha, veículo e cúmplice inventando do qual sou eu também o canal, esse que chamo Cavalo.
          Eu sempre me senti estrangeiro de um jeito ou de outro, me mudando a cada 3 anos durante a infância e adolescência, fingido ter o desprendimento e a coragem que acabei por inventar mas carregando secretamente a mágoa do desvio, da espera da volta. Quando por fim voltei ao Rio com um sotaque três vezes mexido e vi que essa minha terra natal era minha mais por eu a ter inventado descobri-me assim, estrangeiro, e me senti livre e agradecido. Acabei partindo de novo. De repente me vi num deserto, feliz de estar só, deslumbrando o vazio, com o silêncio, de onde escrevi essas músicas. Acredito que todo mundo em alguma medida também se sente estrangeiro, na foma como outros o vêem, em seu corpo, em seu destino talvez, e por isso sonho que esse meu veículo, espelho imprevisível que preencho, que me serve e me move, possa também mover a ti, servir ainda a outros, com sorte.
          Pra dar lugar a esse duplo que se cria como eco num vão, que se mostra na distância, eu abri espaço o quanto soube, tirei até sobrar quase o mote, joguei fora os adjetivos e usei outros idiomas que por eu não dominar como o meu me levaram a uma nova concisão, códigos que não serão compreendidos sempre e que por isso criam mais espaços, levam a outros desvios, invenções. Joguei fora também a capa. Tudo o que estava do lado de dentro protegido pela máscara veio para fora, ficou exposto, limpo de direções, cores, está claro e sem vergonha, aberto. Se revelou a beleza simples da página, o preto no branco que a gente gosta de usar como sinônimo de coisa exata mas que é justo onde moram as infindáveis delícias da interpretação, onde há o maior dos vãos, onde está num enfileirado de códigos o potencial reflexo improvável de ti, do teu olhar. Dentro só o que ouvir. Aí outra separação, outro espaço e outro duplo, dentro e fora, superfície e volume, a coisa e o nome da coisa, eu e a ideia que faço de mim. Entre um e outro a mão estendida, o trem parado na estação, o véu, o teu próprio sonho. Com sorte!
Obrigado pela chance.

R.Amarante




mote

(Do fr. mot, «palavra»)

1. LITERATURA pensamento expresso em um ou mais versos para ser desenvolvido na glosa;
2. tema; assunto;
3. epígrafe;
4. divisa; legenda;

5. remoque;